Dama Branca

Aí, no lago do céu, refletida

Tu pareces à amada de Dante.

Pura, piedosíssima, imaculadíssima

Dama branca.

Tu me lembras

A Beatrice,

E o céu como

A face do poeta fica

Iluminado

E as estrelas cintilam

ao ver-te.

Escurecido fica

Quando tua

Presença de musa,

De ninfa

Distante está.

 Ao nascer, todos

os dias, reluzente

pelo brilho do

Amor de teu amado.

Às vezes muito redonda ,

bem amada.

Por vezes, de um amor minguado.

E estais perto do fim

E, não o amor renasces e cresce

Contigo. E assim te pareces comigo

Minguando, Crescente, Cheia.

Do teu Amor.

És a noiva eterna,

Sempre a espera

De um noivo

Para sempre prometida.

E ficas em noites

Claras teu véu

Pelo céu derramado

Tão claro,

De fios de nuvens construído.

 

Daniely Neves de Melo 06/12/06

 

Canela

 

Caminho, vôo instantâneo

Para o passado.

Perfume da infância.

Sabor das noites de

Criança onde o mundo

Parecia um sonho infinito.

Lembrança da avó

Cheia de cuidados

Me apresentando

As cores de tudo.

Impulsionadora do

Choro perdido no peito.

Tua cor cobriu os

Prazeres de minha infância.

Tua essência traz

Consigo minha alma.

És noite repleta de histórias

De seres encantados e fantásticos.

Mistura-te com a debulha do feijão

Com a luz fosca da lamparina.

Teu calor confunde-se

com o cheiro de chuva.

A pele de minha avó

Feito minha.

És o colo da avozinha

Que na lembrança

Está presa.

És beleza, graça, leveza;

És a sensibilidade que soca

A cara do poeta.

Nostalgia da mão pura

Que acalmava meus pensamentos.

És momento e dor, quando

Tua água transforma-se

Em minha lágrima.

És  também minha alegria

Quando fazes comigo

Um regresso para aquilo

Que vive no verso,

Lá no remoto passado

Quando eu era criancinha

E ainda tinha a avozinha

Que te juntou com doce à vida de

Sua netinha.

 

Daniely Neves de Melo 04/11/2005

 

 

Soneto I

Teu coração, janela que abre e fecha.
Teu coração, às vezes, porta cerrada.
Teu coração, madeira de lei talhada.
Às vezes, telhado repleto em frecha.

Teu coração, de Cupido é a flecha.
Às vezes, é luz do sol espalhada.
Teu coração, às vezes, tarde molhada.
Teu coração é arma que em mim desfecha.

Teu coração, lado escuro do mundo.
É brasa ardente. Outras, sofreu nevada.
Teu coração, mistério, mar profundo.

Teu coração é Dor sofrida calada.
Teu coração, às vezes, é moribundo
Na noite do meu peito destroçada.

Por: Daniely Neves de Melo

Litanias de Blake

 

Cheiro de chuva no sertão escasso.

Volta amiúde ao Éden.

 

Piedade, Blake, para os que

Não vêem as portas.

 

Beleza fresca das tinturas

Cores-d’ água.

 

Piedade, Blake, para os que

estão longe das portas.

 

Voz dos que não podem falar.

Canção de ninar.

 

Piedade, Blake, para o

Anjo assentado no sepulcro.

 

Tigre feroz das florestas

De pedra vivo.

 

Piedade, Blake, para os que

Podam seus desejos.

 

Bardo cantando com

A voz da Terra.

 

Piedade, Blake, para os que

Com suas negras batinas,

Desconhecem o jardim do amor.

 

Porto seguro de meus

Amores poéticos.

 

Piedade, Blake, para os

Que não amam.

 

Menino perdido.

Menino encontrado.

 

Piedade, Blake, para os que

Se recusam a ver a Dor do outro.

 

Casamento de noivos opostos.

Destruição do plausível.

 

Piedade, Blake, para os que

Nada desejam.

 

Intraduzível caminho para

o infinito.

 

Piedade, Blake, para mim

Que esqueci que em ti

não há piedade.

 

Por: Daniely Neves de Melo

Soneto de despedida

 

Longe de onde possa haver vida

Busco meu refúgio em desespero

Espero ter forças nesta partida

Chuva e lágrimas são mais um tempero

 

Estradas se convergem por momentos

Estranhas visões confundem já a mente,

Teu olhar já privado de sentimentos,

Não transparece o que agora sente.

 

Perde-se em minhas mãos tão indignas,

A última lembrança destas lágrimas

Que em teu terno rosto pôs estigmas.

 

Ouve então este meu triste canto

E guarda pois, para si enquanto vive

E converte em luz para ti o meu pranto.

 

Anna Rosina

 

Fragmentos da Eternidade

 

A lógica do tempo

Se dissipa no momento em que o relógio

Discorda da ordem dos meus pensamentos

Então o instante se apaga.

 

E quando olho novamente através do espelho de minha alma

O que resta são fragmentos da eternidade,

Resquícios em meu espírito milenar

Espaços não preenchidos.

 

Laços com o passado corroem minhas entranhas

Cantos funestos ecoam em minha mente.

Enquanto procuro nas cinzas uma ultima recordação

Novamente o tempo esfacela essa emoção.

 

 

Anna Rosina

 

As Nefelibatas

Buscar o infinito, colher o etéreo,

Abolir da mente as idéias sensatas,

Passar entre nuvens, ver o mistério,

Vivendo assim como Nefelibatas.

 

Colher nos jardins ou em cemitérios

Matérias perfeitas, lumes exatos

Nesse mundo grotesco, todo estéril

Misturando o medo e as cantigas beatas.

 

Assim se produz poesia encontrada

Nas mentes confusas, por tédio marcadas

Que buscam na Dor e sortes ingratas,

 

Nas músicas vagas, sons sibilantes

Sugerir o que há nas almas errantes

Daquelas que são As Nefelibatas.

Por: Leudanira Pinto Rocha

Cancões da Inocência

Se você gosta de poesia, leia.

Canções da Inocência1 – William Blake

O universo de William Blake em Canções da Inocência nos transporta em sua profunda inventividade para um mundo visto através dos olhos de uma criança. Nos dezenove poemas do livro tudo está recoberto de imagens que visam levar o leitor a uma viagem por esse perdido mundo da inocência.

Blake tece poemas nos quais aparecem palavras, idéias, temas e figuras que se o leitor não estiver atento, consegue acreditar na leveza do estado bucólico e puro, transmitido excepcionalmente nos poemas: Cordeiro (The Lamb), Canção do Berço (A Cradle Song), Canção Risonha (Laughing Song), A flor (The Blossom) e outros. No entanto, o poeta vai delicadamente explorando temas os quais contados por uma voz infantil ou pela flauta do pastor confundido com um inocente menino por sua pureza, causam propositalmente, reflexões naquele que resolve deliciar-se e se deter na análise da obra.

O poeta ousa através das palavras do menino discutir a situação terrível vivida pelas crianças pobres e órfãs da Londres inserida no contexto inicial da Revolução Industrial. Blake dá voz ao menino para ele próprio revelar a sua vida de sofrimentos. O faz por meio do pensamento da criança que parece conformada, em meio a sua inocência, com o seu destino. Isso se faz extremamente relevante em poemas como O Limpador de Chaminés (The Chimney Sweeper), O Menino Perdido (The Little Boy lost), O Menino Negro (The Little Black boy) e Sobre a Dor do Outro (On Anothers Sorrow).

Quando o leitor ouve o garoto londrino perdido, abandonado ou vendido pelos pais, esquecido pela Igreja e pelo estado e desprezado pela sociedade, cai em si para as intenções nada inocentes do poeta e nisso revela-se a genialidade única de William Blake.

AS NEFELIBATAS

1 Título original: Songs of Innocence. Essa crítica baseia-se na edição bilíngüe de BLAKE, William. Canções da Inocência da Experiência. {Tradução de Mário Alves Coutinho e Leonardo Gonçalves} Belo Horizonte: Crisálida, 2005. Essa edição reúne os dois livros Songs of Innocence e Songs of Experience.

 

nobre lugar

Desprendeu-se mais uma flecha

com seu curare paralisante

e direção curiosamente exata.

Oh! ( Ir ) responsável Cupido!

Por que atinges continuamente

o nobre lugar , já habitado

trazendo consigo o singular Ser

que reside sempre

neste espaço plenamente ocupado por Luz

e que é seu abrigo eterno?

 

Por Matilde Lopes ( Maninha )

Quimera

 

Nesse momento Sonhado

Encontra-se o céu banhado

De brancura ofuscante.

Vêem-se os raios lunares

Mostrando nos grandes ares

A beleza do instante,

Em que se passa na alma

Uma triste e grande Calma,

Soluços de tons gritantes.

Por Leudanira Pinto Rocha.

Concha e Ostra

De ti, gosto quando calas

E quando não és capaz de ouvir-me.

Gosto quando me sentes,

Quando me faz de deusa e queen.

Quando te mostras melhor

que todos os homens do mundo.

Quando comungas do meu corpo,

dos afagos,

da paciência e do meu amor refugado.

Quando te encontro companheiro.

Quando sangra o meu peito

e põe o dedo nas feridas de meu ser.

Quando és concha e eu ostra.

Quando não sabes o que quer.

Quando és o solo que a ponta de

Meus dedos de águia tocam.

Quando és o mar em que mergulho.

Quando te uso e me usas.

Quando vais embora e permanece em mim.

Quando me tocas com as palavras

que acariciam o meu ego.

Quando desvendas os meus mistérios.

 Quando me faz fortaleza

ou me dissipa.

Gosto por estar

em ti...

Por me fazer sorrir...

Por ser dúvida e certeza...

Por às vezes ser gentileza...

Por estar aqui e

Quando se entrelaças em mim

não consigo mais

nos dividir. 

O que é as Nefelibatas?

As Nefelibatas é um grupo feminino para estudos literários, filosóficos e sobretudo poéticos. Ele visa também a produção de poesia por suas integrantes. Fincado nas bases Simbolistas, suas produções e os estudos deverão alcançar todas as épocas literárias. 

As Nefelibatas surgiu a partir da necessidade de estudar e disseminar poesia em todos os meios. O grupo é composto por quatro estudantes de Letras da FECLI - UECE: Anna Rosina Lavor, Daniely Neves de Melo, Leudanira Pinto Rocha  e Matilde Lopes Alves (Maninha).  

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